top of page

habitar o contra espaço

Exposição que acontece na Casa Porto das Artes Plásticas até o dia 19 de dezembro de 2022.


Neste relato de visita à exposição Habitar o contraespaço decidi começar do fim ao início e de dentro para fora, realizando um percurso pelos diferentes contraespaços que compõem a mostra. O contraespaço aparece da contestação à concretude normativa do espaço habitado pelo corpo dissidente, onde o corpo é entendido como campo das memórias, experimentações, invenções, transformações e ressignificações. Delineio o trajeto a partir de dentro da exposição, na relação entre o corpo e a travessia marítima transcontinental, ao compreender a casa como abrigo ou como lugar do trabalho doméstico, a rua em constante construção e reparação, a escola em sua normatividade e o espaço religioso e médico nas suas conformidades. Percorro esse caminho até chegar fora, onde intenciono que os questionamentos suscitados apareçam e atravessem os visitantes.


SER HORIZONTE AQUI é a frase que encontra-se no final do espaço expositivo, em tom de convite, uma instalação de Jaíne Muniz que propõe ao visitante imergir e se perceber através das cores e transparências que remetem à paisagem do horizonte criado pelo céu-mar. Ao confundir a forma humana e gerar parentesco com elementos da natureza, SER-HORIZONTE (2022) se insere como contraespaço para imaginar outros lugares habitáveis. A obra de Jaíne, assim como toda a mostra, vislumbra outras perspectivas de existência no mundo ao explorar as relações dos corpos em contato com o meio social, enfatizando e afirmando o potente discurso político de existir.


A exposição contou com a participação de 9 artistas - Luan Jacinto, Filipe S. Souza, Henrique Tavares, Jaíne Muniz, Júlia Ramalho, Letícia Fraga, Maira Galacha, Matheusa Moreira e Pablo Vieira -, entre os quais estudantes e recém-formados em Artes Visuais e Plásticas da UFES, com curadoria de Bárbara de Oliveira. Os trabalhos abordam distintas linguagens, transitando assim, entre videoperformances, instalações, desenho, fotografia e escultura.


Em frente ao trabalho de Jaíne Muniz e também remetendo ao oceano, está Sobrenado (2022) de Filipe S. Souza, uma instalação que consiste em uma série de barcos esculpidos e cartas-poemas que narram um diálogo com o mar e evocam os anseios de retorno a uma ancestralidade raptada. O artista narra a travessia transatlântica do corpo que trouxe os antepassados de África a América, numa cruzada de mares marcada pelo roubo de toda a potência de pensamentos, cosmovisões e tecnologias presentes na pluralidade africana. De acordo com Doroti Martz (2021) isso se traduz na inibição e desestimação de toda a potência de produções de modos de vidas, o que facilitou o controle desses corpos-vidas em toda terra firme onde pisaram. É nesse sentido que no trabalho de Filipe o papel que contém os escritos é tratado como uma pele ferida, onde foram necessárias várias suturas para fechar as incisões do processo de desterritorialização.


Martz (2021) entende a ancestralidade como um dos elementos constitutivos do corpo em constante travessia; e o corpo, como a maior ferramenta de resistência que a diáspora herdou, quando encontra-se aberto para dialogar, expressar, comunicar e acessar a ancestralidade, deixa caminhos abertos para ressignificar-se no aqui e agora, para inscrever uma nova existência no mundo, para criar-se no movimento, na travessia. Este exercício de relembrar a sua história e de experimentação do corpo como campo das memórias, é executado por Maria Galacha através do desenho nas paredes da exposição.

A origem, os caminhos e processos de resistência são conceitos que perpassam os trabalhos das/os artistas e a sua própria presença na Casa Porto das Artes Plásticas. Dois trabalhos onde podemos perceber nitidamente estes aspectos são Momento de voltar pra si (2022) e Um lugar seguro (2022). Em Momento de voltar pra si (2022), Maria Galacha ilustra mulheres que são sempre a base de toda família preta: as mães, as tias, as avós. O registro das mulheres que contribuíram com o seu desenvolvimento humano e afetivo foi feito diretamente nas paredes da galeria. Desse modo, a obra nos sugere um momento de pausa e introspecção, um convite a refletir: quem veio antes de nós e delas?


Enquanto Luan Jacinto, em Um lugar seguro (2022), revê uma memória de infância, onde a sua mãe construía, com peças doadas de um guarda-roupa, sua moradia. Existe no trabalho uma forte relação de fragilidade e força, pois como o artista explica, por mais precária e improvisada que fosse, a sensação era de que aquele espaço representava um lugar seguro. O sociólogo Lúcio Kowarick (1991), chamou essas construções de abrigo, que feitas pelo sacrificante processo autoconstrutivo e com o objetivo inicial de construir um teto para proteger os seus, constituem um refúgio contra as características eminentemente excludentes e violentas do exterior, advindas do sistema econômico.


Ainda sobre a relação dos espaços públicos e ambientes domésticos, internos e externos, Letícia Fraga apresenta registros de uma videoperformance, Confinada em concreto (2021), que exige o trabalho braçal e repetitivo de preencher até o topo um caixote de madeira cuja fachada é composta por blocos derivados de um brinquedo infantil. No trabalho, a artista brinca com as camadas da construção civil e o trabalho doméstico, chamando-nos a pensar, quem os faz, como, quando e por quê?


O conjunto de trabalhos da exposição questiona, a partir das próprias vivências, o lugar que cada corpo ocupa e como, muitas vezes, seus comportamentos são formatados seguindo certas estruturas predominantes. Júlia Ramalho explora o espaço heteronormativo de uma sala de aula, por meio da instalação corpo/móvel (2022). Ali presenciamos a representação de uma sala de aula tradicional, mas que diferente das estruturas consolidadas que a constituem, esta é frágil e quebradiça, dando lugar às dissidências. Estas representadas sobre papel kraft, através do desenho numa escala maior e com formas mais orgânicas e soltas.


E quando um corpo passa a estar ausente? Henrique Tavares deixa um espaço vazio em cada esquema de disposição de pessoas dos lugares que costumava frequentar antes de ser desassociado da religião. Este processo caracterizado pelo desvio, estigma e exclusão social é representado na série Desassociação (2022), onde o artista deixa um espaço em branco, mas ao mesmo tempo o contorna com lápis, pondo em evidência que o vazio também é um produtor de sentidos, que nos alerta quando um espaço habitado é excludente.


No trabalho são usadas cores pastel, entendidas inicialmente como passivas ou sem capacidade de impor-se, frequentemente utilizadas nas paredes de igrejas, escolas e hospitais, contraditoriamente ao que transmitem, ocupam os lugares caracterizados pela vigilância e adestramento da mente e do corpo.

É justamente esse lugar hospitalar e da medicina em geral que é abordado no próximo trabalho, que encontra-se na entrada da sala expositiva. Matheusa Moreira cria o vídeo Objeto não identificado (2022), onde a contraforma do seu corpo, precisamente do seu pescoço, é convocada aos olhares e a procura do seu Pomo-de-Adão num ambiente que evoca um laboratório médico. Quando ao constatar a inexistência do mesmo, a sua anatomia passa a discordar das conformidades da biologia-medicina occidental. O trabalho surge a partir de uma pesquisa que busca o estudo, pertencimento e consolidação de uma biologia dissidente de gênero.


Em sintonia, pela procura por espaços possíveis para a existência, se insere o trabalho Desperto contínuo (2022) de Pablo Vieira, onde coloca-se através de imagens disposto aos olhares, não desde o imaginário do outro e sim em um perspectiva criada e imaginada pelo artista ao refletir sobre o próprio corpo. Assim, corrobora que é possível reimaginar o presente, justamente a partir da reflexão sobre os desejos do próprio corpo.


No percorrer pela exposição e no processo de convocar os visitantes a estabelecerem relações entre os trabalhos, na minha intenção por exteriorizar os questionamentos que as obras constituíram e colocá-las em confronto com novos horizontes e possíveis atravessamentos de corpos outros realizei uma intervenção nas escadas que conectam o portão externo da Casa Porto com a sala expositiva.


Foram destacados 20 verbos no infinitivo que se inserem como convite à ação do corpo, um corpo que encontra-se em um constante devir, na busca de suas memórias, um corpo como superfície sensível ao que acontece, pensado a partir da capacidade de afirmar singularidades como potências de existir no mundo.

Exposição Habitar o contraespaço

Casa Porto das Artes Plásticas - Vitória/ES - 14 de outubro a 19 de dezembro de 2022.

Luan Jacinto, Filipe S. Souza, Henrique Tavares, Jaíne Muniz, Júlia Ramalho, Letícia Fraga, Maira Galacha, Matheusa Moreira e Pablo Vieira

Curadoria: Bárbara de Oliveira



sobre a autora:

Milena Espinoza Mauttua é estudante de Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) através do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G). Natural de Lima, Peru. Pratica técnicas de ilustração analógicas e digitais. Tem interesse na Arte Contemporânea vinculada à esfera pública. Atualmente participa do Grupo de Pesquisa Entre - Educação e Arte Contemporânea (CE/UFES) e do Projeto de Extensão “Como construir uma esfera pública: debates sobre Arte em suas discursividades e imagens” (CAR/UFES).


referência:

@habitarocontraespaço

KOWARICK, Lúcio. Viver em risco. Sobre vulnerabilidade socioeconômica e civil. São Paulo: Editora 34, 2009.

MARTZ, Doroti. Corpos, travessias e ancestralidade: assentamentos na encruzilhada. In: XI Congresso da ABRACE - O Afro nas Artes Cênicas: performances afro diaspóricas em uma perspectiva de decolonização. v. 21, 2021.

0 comentário

Comments


bottom of page