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o corpo como protagonista da experiência

O corpo enxergado como evidência da presença e existência humana já foi e é alvo de estudo dos diferentes campos, como a filosofia, a ciência, a arte e também a educação, que buscam e refletem suas diversas acepções. Propondo um recorte mediante a perspectiva da educação, um pensamento ainda recorrente em relação ao corpo é do disciplinamento dos alunos, já que persiste a ideia equivocada de que para a aprendizagem ser efetivada é fundamental a disciplina desses corpos.


Essa ideia considera o corpo disciplinado como instrumentalidade, ou seja, como meio para conseguir alcançar o objetivo de “educar”. Isso porque, nessa concepção, o corpo dócil, manso e obediente facilitaria a recepção da aprendizagem dos conteúdos pelos alunos, já que esses não se oporiam aquilo que estaria sendo ensinado ou não produziriam senso crítico sobre os conteúdos e as relações de poder impostas. A docilidade do corpo torna-o passivo e inerte diante do foco que se dá para o desenvolvimento dos processos mentais, como se corpo e mente não atuassem de forma dialética.


A leitura dicotômica entre corpo e mente dissimula a centralidade que a corporeidade tem no campo da educação, levando a crer que os processos de aprendizagem se realizam de forma puramente intelectual, uma falácia continuamente repetida, visto a centralidade do corpo na educação. Fabio Zoboli, Felipe Almeida e Miguel Bordas (2014) afirmam que “O corpo é central não só na esfera da educação, mas no contexto das mais variadas ciências e campos epistemológicos, pois o existir humano se dá através do corpo – o corpo é o meio pelo qual nos utilizamos para experimentar o mundo, para existir no mundo”. Logo, se o corpo é fundamental para a experiência no mundo, parte dessa experiência ocorre pela presença dos indivíduos nos espaços escolares.


A experiência, para Jorge Larrosa (2002) está ligada ao indivíduo/ser humano e sua presença corpórea, visto que trata de tudo aquilo que ocorre, reverbera, toca e afeta o ser, portanto, nem tudo o que acontece seria considerado “experiência”, mas sim somente aquilo que afeta o indivíduo e contribui para a construção das suas subjetividades. Nesse sentido, a experiência não é apenas uma sequência de acontecimentos vividos, mas aquilo que efetivamente ocorre na vida e é fruto das interações entre seres e espaços, gerando desdobramentos nos sujeitos que a vivenciam.


Portanto, Larrosa (2002) propõe pensar educação a partir do conceito de experiência, mediante à noção do ensino como algo que afeta e reverbera nos indivíduos e seus corpos, não como acontecimentos esvaziados de sentidos e que brevemente serão esquecidos e enxergados como insignificantes. Assim, ao refletir o corpo não como instrumentalidade, mas como o próprio ser da experiência, uma das espacialidades na qual os humanos passam boa parte do tempo e localidade onde as interações entres seres ocorre é justamente a escola, que se configura pela presença de múltiplos e diversificados corpos em seus espaços.


Todos esses corpos que circulam pelo espaço escolar são dotados de repertórios, perspectivas, sentidos, vivências e experiências, responsáveis por “contaminar” o processo educativo, visto que: "Todos nós levamos à sala de aula um conhecimento que vem da experiência e de que esse conhecimento pode, de fato, melhorar nossa experiência de aprendizado” (HOOKS, 2017).


O pensamento de bell hooks (2017) parte da ideia de que além das experiências emergidas dentro da escola, existem também as que acontecem fora de seus muros, mas que igualmente são válidas e podem ser aproveitadas pelo contexto escolar a fim de aprimorar o aprendizado. Em congruência, Fernando Hernández (1998) aponta que a educação não se limita à escola e seus conteúdos, mas também ocorre nas relações dos sujeitos (alunos) com suas referências pessoais e experiências com a cultura. Logo, pode-se dizer que a educação seria a soma entre aquilo que o aluno já carrega consigo e é fruto da experiência fora do sistema escolar, aquilo que se aprende e é experienciado na escola, bem como das relações que surgem nos espaços de aprendizagem e nas trocas de experiências entre os sujeitos escolares.


Considerar as experiências e percepções dos estudantes seria enxergar os alunos como sujeitos e não objetos, mas como seres que aprendem e ensinam, portanto, vendo-os como protagonistas das ações educativas (FREIRE, 2018). Nesse sentido, a educação requer a participação ativa dos alunos nas suas práticas, o que leva à reflexão sobre um trabalho artístico que exibe um contexto de aula, especificamente de arte, e que sustenta a noção do aluno como sujeito central das ações educativas. A série La Salle de Classe, realizada por Hicham Benohoud com alunos entre os anos 1994 e 2002 remete a essa intencionalidade dos estudantes terem uma participação ativa no processo de aprendizagem em arte.


O trabalho consiste em fotografias tiradas em sala de aula, dos alunos posando para a câmera e representando cenas incomuns para esse ambiente. As fotos enquadram alguns estudantes na frente dos colegas, no centro da sala de aula, movimentando-se com o auxílio de objetos comuns como papelão, papéis, tecidos, cordas e arames. Enquanto isso, no segundo plano das fotografias encontram-se outros alunos, esses em posições e situações recorrentemente observadas em uma sala de aula.

Hicham Benohoud - La salle de classe (1994-2002)


Assim, vemos a turma em dois planos: alguns estudantes em suas mesas com as cabeças abaixadas concentrados em algum tipo de atividade, enquanto outros posicionam-se no centro da sala e criam movimentos e ações com os objetos, posando para a câmera de forma inusual. Essas poses e cenas inusitadas criadas pelos alunos que estão em primeiro plano nas fotos divergem da atmosfera comum e recorrente dos que estão atrás, aparentemente executando tarefas corriqueiras do dia a dia de um ambiente escolar, sem estranhar o colega em destaque.


As relações opostas causam um estranhamento no olhar do espectador, não só pelas encenações dos alunos do primeiro plano segurando materiais, fazendo poses e agindo de uma forma diferente do usual, mas também pelo fato de remeter que tanto os estudantes do primeiro plano quanto os do segundo plano parecem estabelecer uma relação de descaso ou falta de comunicação entre eles. Esse conflito estabelecido nas imagens é o que cria uma atmosfera de estranhamento no espectador, mas ao mesmo tempo perplexidade por ser algo totalmente diferente do habitual no cenário de uma sala de aula.


Ao convocar os estudantes para esse papel de destaque e experimentação do corpo, o trabalho rompe com a ideia de uma aula de arte só com atividades tradicionais (como desenho, pintura e escultura), explorando materiais e também possibilidades de utilização da sala, em que os corpos dos alunos (que são os sujeitos da experiência) junto com a interação deles em relação ao ambiente constroem narrativas para as fotografias.


O ponto que sustenta a noção do estudante como sujeito central das ações educativas em La salle de Classe é a posição que ocupam os alunos, que nesse caso têm o papel protagonistas da ação artística/educativa. Isso porque eles não funcionam como coadjuvantes, como auxiliares secundários do trabalho artístico, mas são as “esculturas vivas” do trabalho, o foco central da obra. Sem eles as “poses”/ações não aconteceriam, enquanto isso, o fotógrafo, professor e artista atua como um “diretor de cena”.


Esse protagonismo subverte a noção de corpo submisso, proposto a partir da ideia disciplinar de corpo presente no pensamento de Foucault (1999), que diz: “É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado”. Essa submissão pode se encontrar de muitas maneiras nas escolas, seja por um conjunto de regras impostas aos alunos, pela limitação do espaço a ser percorrido pelos estudantes, pela limitação de um horário para beber água ou ir ao banheiro, ou também, pela própria configuração da arquitetura escolar e seus elementos. Por exemplo, a configuração das carteiras de modo enfileirado que sugerem uma hierarquia entre os alunos como seres dóceis que não devem interagir entre si. Nessa espacialidade, o professor, com o papel de destaque, seria compreendido como o único detentor do conhecimento a ser repassado aos alunos.


Hicham Benohoud subverte essa ideia ao sugerir o trabalho artístico atuando como um artista-propositor da obra, mas ao mesmo tempo concedendo aos alunos também o espaço de autoria, o que fez com que esses recebam papel de destaque na criação e sejam também os artistas. Assim, a partir do trabalho La Salle de Classe, pode-se pensar a sala de aula como um espaço de experimentação de novas práticas que podem ser exploradas e inseridas no contexto escolar pelos professores de arte e reconfiguradas a partir das respostas dos estudantes.


Isso a fim de não só ampliar o repertório de atividades, mas questionar também o lugar que os estudantes ocupam, não como seres cujos corpos devem ser docilizados, mas como sujeitos da educação, como autores do ensino, juntamente com a figura do professor. Nesse sentido, o docente não tem a única função de repassar o conhecimento, mas de ser um aproximador/propositor de discussões e ações para gerar interesse nos alunos em relação aos diversos conteúdos.


Com essa leitura, La Salle de Classe se aproxima também da noção de experiência sugerida por Larrosa, já que propõe-se como exercício artístico e educativo em que os estudantes se tornaram os sujeitos da experiência, partiram da proposta do professor/artista e experimentaram a sala de aula mediante a perspectiva de se tornarem ativos no processo educativo. Além de experienciar igualmente as interações entre os sujeitos, criando relações com o espaço da sala e os colegas e, sendo assim, atravessados pelas perspectivas de cada indivíduo presente na cena.

Hicham Benohoud - La salle de classe (1994-2002)



sobre a autora:

Clara Pitanga Rocha é graduanda na Universidade Federal do Espírito Santo. Atualmente faz parte do "Grupo de Pesquisa Entre - Educação e arte contemporânea" (CE/UFES), e do grupo de pesquisa "Estudos de práticas fotográficas autorais". É membro e bolsista do projeto de extensão "Interfaces do ensino da arte" e do Núcleo de Artes Visuais e Educação do Espírito Santo (NAVEES). Pesquisa o caminhar como uma prática artística e educativa e desenvolve materiais e jogos educativos para o ensino.



referências:

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. In: Revista Brasileira da Educação, N° 19, Jan/Fev/Mar/Abr, Rio de Janeiro: ANPED, 2002.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. 20ª ed. São Paulo: Vozes, 1999.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2018.

HERNÁNDEZ, F. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Trad. Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre, Artmed, 1998.

HOOKS, bell. Ensinando a Transgredir: a educação como prática de liberdade. / bell hooks; tradução de Marcelo Brandão Cipolla - 2.ed. - São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.

ZOBOLI, Fabio; ALMEIDA, Felipe e BORDAS, MIguel. Corpo e educação: algumas questões epistemológicas. Revista Contemporânea de Educação, vol. 9, n. 18, julho/dezembro de 2014. Acesso em: 18 de junho de 2022. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/rce/article/view/1856 .

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