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nem todo mundo que vê, vê

Relato do encontro “E se experimentássemos mais? Contribuições não técnicas de acessibilidade em espaços culturais”, com Camila Araújo Alves, realizado em 26 de abril de 2021


Em isolamento social devido aos altos índices de transmissão da COVID-19 e leitos de hospitais lotados em todo o Brasil, o Grupo de Pesquisa Entre - Educação e arte contemporânea se reuniu para mais um encontro online, dessa vez para dialogar sobre a importância da acessibilidade nos museus. A convidada foi Camila Araújo Alves, mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Fluminense e doutoranda na mesma instituição, que trabalha em centros culturais desde 2010, realizando oficinas e visitas mediadas e coordenando projetos educativos para públicos com e sem deficiência. Como arte/educadora se dedica a criar estratégias de mediação acessíveis, desenvolvendo pesquisas teórico-práticas sobre acessibilidade estética.


No primeiro momento do encontro, Camila explicou como foi a sua trajetória como mediadora nos espaços culturais da cidade do Rio de Janeiro. Sua entrada no campo se deu por meio de um convite para o processo seletivo de uma vaga para mediação na exposição do artista Hélio Oiticica. Vindo de uma formação no campo da Psicologia, Camila tinha pouca proximidade com arte e desconhecia a produção do artista. Esse fato não foi impeditivo, visto que durante a entrevista para contratação ficou claro que se buscavam mediadores que estivessem dispostos a pensar a relação com a experimentação, questão central da produção de Oiticica e foco da proposta curatorial da exposição retrospectiva. Mediar o trabalho de Hélio Oiticica oportunizou à Camila uma nova experiência do desconhecido, no qual pôde entender que “mediar é oferecer diferentes possibilidades, correndo o risco de não saber de antemão o que produzirá efeitos, nem mesmo que efeitos se produzirão no encontro com o outro. Mediar é tonar uma obra acessível e envolve experimentar” (ALVES; MORAES, 2019, p. 490).


Posteriormente, Camila explicou a importância da acessibilidade nos museus, que vai muito além das normas da ABNT (arquitetura e engenharia), ou seja, da construção e adequação dos prédios para atender às pessoas com deficiências. Ela pensa a acessibilidade na perspectiva social, questionando os efeitos de uma sociedade pouco inclusiva, uma sociedade que oprime a diversidade dos corpos. Na sua perspectiva, a acessibilidade deve também incluir as obras de artes, sendo importante que os artistas pensem também nesse público. Assim, ela relata a dificuldade que teve de mediar as obras de Tarsila do Amaral, por exemplo, em outra experiência vivida como arte/educadora, pois o conjunto da exposição tratava somente de pinturas bidimensionais. Como ela mediaria as obras com o público com necessidades especiais, principalmente para pessoas com deficiência visual, se não poderiam tatear as obras?


Para além do olhar para a arte como próprio recurso da acessibilidade, Camila ressaltou a importância da inclusão dos variados sentidos (tato, olfato, paladar, visão, audição) nas propostas educativas, afirmando que usar um único sentido, como por exemplo o tato em uma maquete de matriz tátil, não traz toda dimensão e dinâmica de uma obra. Assim, torna-se de suma importância o papel do mediador para o público com necessidades especiais e também a contratação de pessoas deficientes para trabalharem nos museus como mediadores ou assessores dos projetos educativos.


Diante dessas proposições, a convidada relatou uma experiência vivenciada no projeto educativo da exposição da artista Yayoi Kusama no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. Ao pensar em adaptações para a obra Obsessão infinita, composta por espelhos nas paredes e teto e um espelho d’água no chão, com diversos pontos de luz que pendiam do teto, a equipe educativa criou uma sala imersiva que apostava na leitura dos conceitos da obra por meio de outro sentido. A ideia proposta por Kusama com Obsessão infinita era deixar o público imerso em diversas imagens de si mesmo e, conforme o visitante andasse pela sala, essa imagem iria se afastando ou aproximando, dependendo do jogo de reflexão dos espelhos, trazendo a profundidade para dentro da obra. Diante do desafio de como mediar essa experiência, pensando que o tato e a identificação do toque nos materiais não permitiria um entendimento dos conceitos da obra, criou-se uma proposta sonora. A convidada contou que foi possível transmitir essa sensação através de um cubo sonoro, em que o público entrava, uma sala de nove metros quadrados que dispunha no centro de um fone, um microfone e um pedal de amplificador.


Quando o visitante falava seu nome no microfone, era possível ouvir a sua voz em diversos sentidos do cubo (frente, lados, de baixo, de cima), passando a sensação de reflexão, tal como era possível vislumbrar pela leitura visual com os espelhos da obra de Kusama. Com o passar do tempo de imersão na instalação do educativo esse som ficava cada vez mais baixo, trazendo também a sensação de distanciamento e profundidade que a percepção visual permitia compreender.


Para que essa proposta fosse possível, Camila reforçou a importância da equipe educativa presente no Centro Cultural para montar uma estratégia para o público com necessidades especiais. Durante nossa conversa a convidada ressaltou que muitos visitantes fora do público alvo também participaram dessa sala imersiva sonora, compreendendo mais sentidos que a obra instalada de Kusama poderia trabalhar, ou seja, ainda que disponham dos meios para acessa a obra original a experiência de imersão se torna amplificada pelo outros sentidos; pois nem todo mundo que vê, vê.


O encontro do Grupo com Camila Araújo Alves nos fez pensar de fato o que é acessibilidade dentro do campo artístico, problematizando inclusive práticas que assumimos em nossas propostas educativas. Da conversa ficaram diversas questões, entre elas: como professores e artistas, como podemos tornar o ensino a arte mais acessível?



sobre a autora:

Aline Mattos de Souza Marques é estudante de Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Licenciada em Geografia pela Universidade Federal do Espírito Santo, Pós-graduada em Gestão Ambiental e Mestranda em Educação em Ciências e Matemática ambos pelo Instituto Federal do Espírito Santo. Tem interesse na interface entre arte e ciência e nas práticas de arte/educação em espaços não formais, no qual faz relação com a pesquisa de mestrado. Atualmente faz parte do Grupo de Pesquisa Entre - Educação e arte contemporânea (CE/UFES).



referência:

ALVES, Camila Araújo; MORAES, Márcia. Proposições não técnicas para uma acessibilidade estética em museus: Uma prática de acolhimento e cuidado. Estudos & pesquisas em psicologia, Rio de Janeiro, v. 19, n. 2, p. 484-502, 2019.



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