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meu corpo, suas regras








Com o auxílio das redes sociais e das mídias digitais, as mensagens propagadas pelo movimento feminista têm reconfigurado as representações dos produtos da cultura visual. Essa é uma das conquistas da luta do movimento , que tem articulado uma série de debates acerca de ideias sobre empoderamento do corpo feminino que foram difundidas pelo mundo. Articuladas com outras discussões, como homofobia e racismo, o feminismo tem levantado tópicos como aborto, autonomia do corpo e violência contra a mulher como pautas. Como exemplo do movimento Marcha das Vadias realizado em Toronto, em 2011, que foi seguido por muitos outros países ao redor do mundo, moldando-se ao longo dos anos e dando espaço para novas narrativas dentro de contextos específicos.


Nas diferentes Marchas realizadas pelo mundo podia-se ler a frase “meu corpo, minhas regras”, que estampava cartazes e corpos de mulheres presentes nas passeatas, uma reivindicação das mulheres pelo direito de assumir o controle do próprio corpo, sem serem rechaçadas, humilhadas e violentadas por isso.


É de se admirar as ideias e estudos que deram origem ao movimento e o que de fato elas reivindicavam. Mas em paralelo a essa discussão, existiam outros setores onde esse discurso não era capaz de penetrar, setores que ainda reforçavam ideias contrárias ao que se tentava modificar no pensamento feminino. Ainda hoje, a luta permanece continuamente tentando revisar pensamentos patriarcais que demarcam a vivência cotidiana do corpo feminino.


Não tão longe do início da Marcha, em 2014 – ano das publicações presentes nas imagens desse trabalho – revistas de moda de grande alcance do público feminino ainda usavam de padrões e regras que reforçavam o sistema de padronização dos corpos, com editoriais e matérias pensadas majoritariamente por homens para o controle do pensamento das mulheres. Evidente que revistas de moda são, principalmente, objetos de publicidade e seu objetivo é impulsionar o consumo, importante considerar. Dessa forma, não se fazia interessante, naquele contexto, aderir às ideias do movimento feminista ou as mudanças de postura em relação aos seus corpos.


María Acaso (2006) trabalha com a ideia de que existe uma nova forma de terrorismo – o terrorismo visual – que se diferencia das demais por usar a imagem como principal ferramenta, causado principalmente pelos grandes veículos de informação e pelas multinacionais através da publicidade. Desta forma, meu corpo, suas regras tenta destacar nas páginas da revista elementos de que traduzem terrorismos visuais que são utilizados para nos fazer desejar coisas que não temos e, por isso, viver em uma luta contínua para obtê-las. Foram utilizados como objetos de estudo várias edições da revista Vogue do ano de 2014. As imagens foram criadas a partir de colagem digital, mesclando títulos com a mensagem que a imagem carrega.


O trabalho segue várias linhas de estudo: a estética facial, a estética do corpo, a construção de gênero desde a infância, os preços dos objetos de desejo mostrados e o público que faz parte da criação dessas tendências e quem elas realmente se destinam.


A primeira imagem carrega os padrões de beleza mais presentes na revista: cabelos loiros, lisos, olhos claros, uma boca vermelha e cheia, pele branca e sem marcas. Uma mulher jovem, sem a ação do tempo. Esse padrão se repete ao longo de diversas páginas, ao ponto de poder ser construída uma nova pessoa a partir de diferentes imagens.


A segunda imagem dialoga com a magreza excessiva. Em todos os exemplares que usei como objeto, não havia presença de mulheres gordas em editoriais ou imagens publicitárias. Em contrapartida, eram sempre reforçados a venda de cintas ou procedimentos estéticos e o corpo magro era constantemente colocado em uma posição de saúde e beleza.


Na sequência, apresento imagens da Vogue Kids, uma revista a parte voltada para mães (uma problemática em si, pela representação do gênero feminino como aquele que cuida dos filhos). A seção dava dica de comportamento e estéticas para crianças, principalmente para meninas, sendo comum a presença de crianças maquiadas, estereótipos de gênero e o incentivo do consumo de cosméticos e brinquedos.


A próxima imagem parte de um editorial que trazia o titulo “de cara com a rua”, onde a modelo estadunidense se colocava em diferentes locais de favelas, com elementos estereotipados do que seria “a rua”. Nas legendas os preços exorbitantes que deixavam claro que o produto final não era, nem de longe, destinado ao público que residia naquele local. Me chama a atenção nesse editorial a presença de homens negros sendo usados apenas como elementos de cenário em torno da mulher.


Por último, a coluna social da Vogue, onde fotos de eventos sociais eram divulgadas: grandes desfiles, aberturas de galerias de arte e tudo relacionado à elite. Em uma das páginas, as fotos sobre uma mostra brasileira que ocorreu no exterior traziam o título “Brasil tipo exportação”, e mostrava pessoas brancas com sobrenomes aparentemente estrangeiros dando “cara” ao povo brasileiro. A matéria e o conteúdo dela traduziam bem o tipo de brasileiro que tem acesso majoritariamente a esses espaços e, consequentemente, pode estar presente nessas colunas.



sobre a autora:

Ana Carolina Ribeiro Pimentel é graduada em fotografia pela Universidade de Vila Velha e atualmente cursando licenciatura em Artes Visuais pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Participa do Grupo de Pesquisa Entre - Educação e Arte Contemporânea (CE/UFES) com foco na linha de processos artísticos e educativos relacionados na contemporaneidade.



referência:

ACASO, María. Esto no son las Torres Gemelas: Cómo aprender a leer la televisión y otras imágenes. Madrid: Los Libros de la Catarata, 2006.

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