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existem quantos filtros mais bonitos do que eu?

Relato da conversação “Filtro, filtro meu” com Ana Carolina Pimentel e Julia Rocha, ocorrido no dia 28 de março de 2022, por Any Wutke


Os filtros estão presentes no nosso cotidiano através de aplicativos ou embutidos na própria câmera do celular; esbarramos com distorções de nossa imagem em diversos lugares, quando nos encaramos no espelho chega a causar um estranhamento, já não sabemos qual é a nossa imagem real e o que gostaríamos que fosse. Os filtros sugerem que nossa pele seja mais clara, que não tenha manchas ou marcas do tempo, que nosso nariz seja mais fino ou que tenhamos a boca mais preenchida. Com tantas transformações sendo demarcadas é possível ter um bom relacionamento com nossa autoimagem? E se quisermos mudar algo, será que é mesmo um desejo próprio ou uma imposição social? O padrão de beleza sempre foi uma imposição muito forte na vida das mulheres e a conversação, com Ana Carolina Pimentel e Julia Rocha, discutiu sobre como os avanços tecnológicos estão reforçando padrões estéticos.


Este encontro foi marcado por uma nova dinâmica do Grupo Entre: a conversação. Trata-se de uma discussão sobre o tema, que foi trabalhado a partir de trocas e de debates com os participantes do encontro. Depois, construiu-se uma ação a partir desse debate. A conversa partiu de uma discussão sobre a prática do uso de filtros do instagram no cotidiano e como isso reflete de formas diferentes em cada um: algumas pessoas relataram usar filtros e se incomodar com sua imagem fora das redes, enquanto outras disseram não serem adeptas aos filtros pelo incômodo de ter sua imagem distorcida e se encarar de outra forma no mundo real. Fomos convidadas a nos olharmos com transformações muito distorcidas (a partir de alguns filtros específicos previamente selecionados e experimentados com uma selfie que servia para nos apresentarmos às demais) e a nos olharmos no espelho e o ponto em comum foi o incômodo geral com a própria aparência. A partir dessa prática e de nossas trocas, pudemos perceber que há uma mesma motivação ao fazermos a escolha de utilizar o filtro ou não: o desconforto de lidar com a alteração de nossa própria imagem.


Para ampliar nossa discussão foi sugerida a leitura prévia do artigo Formação do olhar a partir de um referencial imagético: A pressão estética sobre o corpo feminino (2022), escrito pelas proponentes da conversação, um texto que aborda as diversas mudanças de padrão estética da mulher ao passar dos anos, demarcando como sempre há um padrão ideal e ele nunca está relacionado ao que você tem. Nele, as autoras analisam o curta metragem Supervenus (2013), de Frédéric Doazan, que questiona até onde vão essas modificações. Nosso debate feito depois da leitura da produção audiovisual demarcou como o corpo de uma mulher real nunca suportaria tamanhas mudanças, levaria a extinção de seu próprio suporte.

Frédéric Doazan - Supervenus (2013)


Já sobre a série fotográfica Monstrous Feminine (2016) de Jessica Ledwich, as autoras (2022, p. 8) destacam: “As imagens exploram os terrorismos do corpo e a presença das grandes marcas como objetos de desejo feminino, a ponto que se deve fazer de tudo para alcançá-las e possuí-las”. Nesta série se discute para além do próprio padrão de beleza da mulher o que ela precisa desejar/ter, o aspirador de pó faz uma alusão ao trabalho doméstico feito por mulheres em sua maioria e que não é remunerado. Em contraponto ela suga a gordura da coxa e coloca em seus lábios, ao mesmo tempo em que não recebe por seu trabalho e é incentivada a gastar com a indústria estética. A obra deixa explícito também que a subjetividade da mulher é irrelevante ao cortar seu rosto, aniquilando sua identidade. Sendo assim, nas duas produções foi possível compreender a mulher como um objeto que precisa desejar outros objetos, capaz de ser modificada ao desejo de seu consumidor.

Jessica Ledwich - Monstrous Feminine (2016)


Após as discussões construídas com a leitura das imagens, as propositoras lançaram uma proposta prática: transformar tudo o que foi dito e debatido em algo visual. Os participantes foram divididos em dois grupos de mais ou menos 10 pessoas e cada um deveria pensar em uma proposta visual utilizando a impressão de uma boneca inflável. A impressão foi entregue com o corpo da boneca dividido em várias folhas A4, de forma que em uma folha estava um braço, em outra a perna, em outra sua genitália, seu rosto e assim por diante. Enquanto um grupo pensou sua produção a partir de um lado mais verbal, o outro pensou em uma construção em torno da visualidade, remontando o corpo da mulher.

produção grupo 1

produção grupo 2


Na proposta do grupo 1 houve uma nova organização desse corpo, brincando com os sentidos da importância do corpo da mulher, onde a genitália está no topo, abaixo seus peitos e por último sua cabeça. A boneca é disposta conforme um troféu, suas pernas e braços se tornam alças. O grupo também colocou em evidência vários objetos que são produzidos enfaticamente para o público e desejo feminino, como batom, esmalte, gilette rosa e bolsa de grife. No topo do corpo há a frase “somos troféus", complementada com “peitos e genitália" na base, deixando em evidência o que é desejado que se observe na imagem.


A proposta do grupo 2 remontou o corpo da mulher e propôs uma mudança em termos difundidos na sociedade que utilizam gírias relacionadas à genitália masculina, substituindo-a para o feminino, tais como: “Vagina sonha em conquistar o mundo”, “A’s de vagina” na boca, “Vagina manda”, “Vagina-brasil”, ”Meter a vagina nele”, “A vagina comeu”, “Em casa de ferreiro o espeto é de vagina”, “É vagina, é pedra, é o fim do caminho”, “Vagina que nasce torta nunca se endireita”, “Nem a vagina, Juvenalda” e “Santinha da vagina oca”. As expressões foram apropriadas a partir de uma crônica da escritora Tati Bernardi e marcam diferentes partes da imagem. Essa mudança reflete os papéis do homem e da mulher na sociedade a partir de um outro ponto de vista, o feminino.


Nossas reflexões nos levaram a acreditar que precisamos discutir muito essa temática para avançarmos, visto que o mundo continua falocêntrico, seja na linguagem sempre associando coisas positivas ao masculino e coisas negativas ao feminino, seja imagem, nos bombardeando de imagens distorcidas que fazem com que as mulheres se sintam pressionadas a cumprir com um padrão de beleza. Com isso, são as mulheres o foco central do mercado, são elas que acabam gastando muito mais tempo, dinheiro e saúde movimentando o mercado da estética e do consumo de beleza. Porque os produtos voltados para o público feminino são mais caros? Porque a maioria dos procedimentos de beleza são voltados para mulheres? Porque os xingamentos se concentram no gênero feminino, diminuindo a posição da mulher na sociedade? Seja a partir das palavras ou da imagem, continuamos sendo colocadas nesse lugar de objeto. A questão é: como podemos acabar com esse terrorismo visual/textual? Como valorizamos as mulheres sem que seja a partir de sua própria imagem e seu próprio corpo?



referências:

ROCHA, Julia; PIMENTEL, Ana Carolina Ribeiro. Formação do olhar a partir de um referencial imagético: A pressão estética sobre o corpo feminino. Revista Digital do Laboratório de Artes Visuais, Santa Maria, vol. 15, e26, p. 01-18, 19 Dez. 2022.


Imagem: https://www.facebook.com/natalieux/photos/a.119478884914019/281824755346097/?type=3&paipv=0&eav=Afbce92vVe2T5OkYR7nQW3oGRpX6p64TQ7Lml_iol-YRTA09pKHlU_363veVTl5Elos&_rdr


sobre a autora:

Any Wutke é professora de artes no ensino básico da rede municipal de Serra - ES. Licenciada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Participa do Grupo de Pesquisa Entre - Educação e arte contemporânea (CE/UFES/CNPq). Realiza pesquisa e tem interesse na área do ensino da arte e arte contemporânea e as relações desses campos com as novas tecnologias.

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