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entrevista Ione Reis

Ione Reis, nasceu na cidade de Itabatã no extremo sul da Bahia, começou a se envolver e se interessar pela arte através dos projetos culturais que haviam na escola pública que frequentou durante o ensino médio, mostrando a importância de programas que incentivam o desenvolvimento das habilidades dos jovens.

Apresentando uma poética ligada à figura do corpo preto, suas memórias, expressões e culturas, tem por objetivo ressignificar a imagem estereotipada e marginalizada de pessoas pretas, contestando os tipos de invisibilidade que as perpassaram durante e após a diáspora africana.

Para isso a artista utiliza referências subjetivas, de uma ancestralidade afro-indígena. Como lembranças de sua própria infância, das histórias contadas por suas/seus familiares e das percepções do seu cotidiano. Esses aspectos são evidenciados por meio de retratos que destacam bem as expressões e olhares dessas pessoas representadas, nas cores: amarelo, marrom e vermelho, e das texturas presentes em suas obras que permitem uma contemplação das formas orgânicas das tintas e outros materiais utilizados.


Graduada em Artes Plásticas – Bacharelado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes); pesquisadora no LitERÊtura – Grupo de estudos e pesquisas em diversidade étnico-racial, literatura infantil e demais produtos culturais para as infâncias; capoeirista no Grupo Beribazu – UFES, integrante do coletivo de artistas negras, Pretas inCorporações e do movimento Nacional TROVOA.


Raquel das Neves Coli: Como surgiu seu interesse pela arte e como foi seu começo no sistema?


Ione Reis: Meu interesse pela arte iniciou em 2012 aproximadamente, quando eu estava no ensino médio. Eu estudava em uma escola estadual da Bahia onde haviam alguns projetos culturais e eu comecei a participar dos projetos e me identifiquei mais com o AVE (Artes Visuais Estudantis). Eles forneciam os materiais e nós participávamos de uma espécie de exposição competitiva, onde quem ganhasse passava de fase. No primeiro ano eu fiquei em segundo e no meu terceiro e último ano eu ganhei e fui para a próxima fase em Teixeira de Freitas. Acabei não ganhando o campeonato, mas foi muito bom porque lá eu tive contato com outros artistas plásticos, alguns formados pela UFBA e pude entender mais desse universo. Foi uma época muito boa, inclusive de Governo, pois, se não me engano, esse programa nem existe mais.


Uma coisa que lembro muito dessa época foi que eu pesquisei muito sobre o meu Estado e o povo preto. No início era muito mais sobre a Bahia, pois eu morava em Itabatã, que é no extremo sul do Estado, então não tinha muito contato com Salvador, por exemplo. Depois conheci mais sobre a baiana Dinha, uma grande quituteira de Salvador, que é muito importante para a região. Eu só pesquisava isso por conta da pintura, do projeto, pesquisava porque queria levar essas figuras para a minha poética. Antes desse projeto eu não me via como artista, começar a me enxergar assim é algo que eu devo muito a minha professora de artes no Ensino Médio, chamada Amanda Santos, que sempre me incentivou e me fez querer fazer algo relacionado com as artes, com a criação.


Minha primeira exposição foi na Dada, uma das Galerias da UFES. Em 2019 foi o ano que eu mais tive oportunidades de expor meu trabalho. A primeira mostra que sinto que teve um grande impacto foi em São Paulo, com a exposição Pretas reSignificações, realizada pelo Coletivo Pretas inCorporações formado por mim e mais 12 artistas pretas, que aconteceu na Pinacoteca Diógenes Duarte Paes em Jundiaí – SP e contou com artistas como:Andrea Mendes, Brenda Nicole, Jessica Paulino, Helen Aguiar, Monique Santos, Thayara Maglhães, Bill Dias, Daniela Nespolli, Jordana Braz, Thaís Selva e Paloma Gabriele.. Foi inesperado, me inscrevi pelo Instagram e fui selecionada. Nesse momento me senti mais dentro do sistema da arte, porque tive a oportunidade de sair de Vitória, conhecer outras artistas, sair da bolha do Centro de Artes [da UFES] e senti que podia realmente fazer mais coisas.


Assim que voltei que fiz essa exposição individual na Dada, certamente influenciada por essa exposição em São Paulo. No final de 2019 participei da exposição Gira no Mucane - Museu Capixaba do Negro, com Castiel Vitorino, Felipe Lacerda, Kika Carvalho, Rafael Seggato, Julia Muniz e Natan Dias. A Napê Rocha, curadora, entrou em contato comigo, pois o Mucane estava numa situação bem complicada de descaso, o espaço estava abandonado. Com o objetivo de mudar esse panorama Thais Souto Amorim e Napê Rocha fizeram o projeto da exposição, propondo que todos juntos se preocupassem em realizar a exposição, mesmo sem recursos, para ocupar o espaço.


RNC: Você é fruto de um projeto escolar que te ajudou a tomar consciência de que queria trilhar no caminho da arte. Como é para você ter feito a Oficina retratos negros, pelo Quilombinho? Pretende continuar produzindo oficinas para crianças e adolescentes?


IR: Como eu venho de um projeto de escola e entendo essa importância, acho que estar presente na escola ou em espaços com crianças e adolescentes me faz querer fazer mais isso. Me entendo como uma oficineira, inclusive estou buscando espaços para fazer oficinas e pretendo continuar fazendo mais projetos nesse formato. A oficina me faz pensar sobre a necessidade de levar as questões que eu trabalho para as crianças e jovens que às vezes não têm esse olhar de si como potência.


A oficina Retratos Negros surgiu como uma ideia de levar o conhecimento da Universidade para quem não tinha acesso a essas questões, mas também como oportunidade de olhar para si. Então eu comecei a me apaixonar por oficinas. Já tive a oportunidade de desenvolver também oficina de capoeira e musicalidade na capoeira.


RNC: Como você conceitua sua poética?


IR: Minha poética veio como forma de ocupar o espaço enquanto pessoa preta, de demarcar o lugar como artista preta, então minha ideia sempre foi demarcar esse espaço de corpo preto e trazer visibilidade para outras pessoas pretas. Quando eu comecei trabalhava com os Retratos Negros, que eram retratos que eu fazia com quem estudava comigo, que estava ao meu redor. Eu me sentia muito podada quando cheguei no curso de Artes Plásticas e fui entendendo as coisas, vi que só tinha as mesmas pautas e quando senti mais liberdade fui produzindo uma espécie de resposta ao que eu via, porque até então eu não tinha visto produção de pessoas pretas naquele espaço. Comecei a me interessar muito pela figura humana, preta ou não, mas entendi que para mim o caminho era o do humano preto e comecei a produzir em várias linguagens a figura da pessoa preta. Através do meu trabalho comecei a me entender também, a entender minha história e comecei a me colocar de outras formas. Hoje eu produzo como uma mulher preta, descendente de pessoas pretas mas também de indígenas. Vejo minha poética como um relato visual, pensando muito sobre o que vejo, mas pelo olhar de uma mulher negra. Quem representa o que vê sou eu, mulher preta, não estou sendo representada por outros.


RNC: Quem são os artistas que te influenciam?


IR: Geralmente cada artista que está caminhando comigo me influencia muito, mas entre as muitas inspirações que tenho e que me influenciam, duas tem me tocado muito ultimamente, a Cassi Namoda e a Maria Auxiliadora.


RNC: A sua produção passa predominantemente por pinturas, mas você já explorou diversas materialidades como a escultura e o vídeo. Uma dessas experimentações resultou no vídeo Olhares opositores, de 2019, inspirado no livro Olhares Negros: raça e representatividade, de bell hooks. Como foi o processo dessa obra? Hoje você concentra sua produção em pinturas ou continua explorando outras linguagens da arte?


IR: Olhares Opositores vem da minha pesquisa, pois eu já estava no processo de investigação. Durante o processo encontrei esse livro da bell hooks e comecei a entender mais algumas coisas. Olhares Opositores vem para falar desse olhar que já não faz mais algo determinado e sim tem o poder de olhar para o que quer olhar e fazer. O diferencial desse vídeo é a questão do detalhe do rosto. Atualmente, eu tenho focado em produzir mais em pintura, tenho sede de produzir em outras áreas, entretanto me faltam recursos. O vídeo, por exemplo, eu tenho várias gravações prontas que precisam de edição e de um momento em que eu possa parar e pensar como vai ser. Eu tenho muito interesse em várias áreas, principalmente vídeo e pintura, mas o que me é mais acessível é a pintura. Pretendo muito lançar mais vídeos em breve, ano que vem vão rolar mais projetos, já tenho uma proposta de exposição que vou usar vídeo, então provavelmente terei mais recursos, pessoas ajudando para produzir os vídeos.


RNC: Nos últimos anos você tem desenvolvido alguns murais e se inserido mais no universo da arte urbana, como foi esse processo?


IR: Eu sempre fui apaixonada pelo grafite, mas é louco como a maioria das coisas que eu sempre quis fazer só tive oportunidade por meio da Universidade. Eu entrei no curso em 2016 e sinto que com certeza tenho muito para aprender ainda, mas o que eu aprendi até hoje veio da Universidade, onde tentei me apropriar de tudo que me foi ensinado. Comecei a ver em Vitória as pessoas produzindo e isso me deu vontade de crescer no meu trabalho (tanto em dimensão como em acessibilidade), até comecei a crescer em papel e tela, mas ainda queria mais. Desejo gerar impacto, colocar esses rostos que eu pinto na rua, porque na Universidade e nas galerias ficamos muito restritos a uma bolha. Em 2019 eu conheci a Amanda mais conhecida como “Chama.Amanda” e conversei com ela, que me convidou para a realização do meu primeiro muro, em um bairro mais periférico. Fiz com pincel mesmo, mas foi bem legal e de lá para cá eu comecei a me jogar e fui para o grafite mesmo com spray, que é algo que eu quero cada vez fazer mais, para deixar as produções mais públicas e acessíveis, que é o que faz sentido para mim.


RNC: Em 2021 você foi uma das selecionadas para o Woman on walls (WOW) um projeto que visa ajudar o desenvolvimento e impulsionamento da carreira artística de mulheres artistas a partir de mentorias e aulas online, você poderia falar mais sobre essa experiência e como ela influenciou sua poética?


IR: É um curso que começou na pandemia, um projeto que já acontece pelo Instagraffiti, liderado pela Marina Bortoluzzi e Marcelo Pimentel. É um curso diretamente projetado para mulheres artistas, onde temos a oportunidade de conhecer diversas artistas, de estudar mais sobre a História da Arte e reconhecer a presença da mulher na História da Arte. Tivemos contato com várias artistas da cena, como Crica Monteiro, Daiara Tukano, Renata Felinto, Lady Pink, Igi Aiedun, entre outras. O que possibilitou fazer esse curso foi o último mural que eu fiz, a Marina comentou que foi por ele que eu fui selecionada, um mural realizado na Mulheres Urbanas, uma residência artística do Espírito Santo que foi muito importante e teve artistas como Kika Carvalho, Chama.Amanda, Keka, Lu Bicalho, Gê Abreu, Musca, Camz. Isso mostra a importância de ter tido o suporte como o da residência, te ter material disponível para produzir.


A importância da participação no WOW foi de me afirmar também como artista, porque enquanto mulher artista a gente dúvida o tempo todo desse espaço que se ocupa. O curso me fez ter mais certeza de que esse lugar é meu e que eu posso estar aqui, além de ter me ajudado a ter mais vontade de seguir nesse caminho da minha poética, porque tive duas consultorias e isso me incentivou muito a continuar produzindo.


RNC: Pensando no ambiente do ensino, como gostaria de ver sua produção sendo compartilhada nesse espaço tanto em oficinas tanto em escolas?


IR: Eu fico muito feliz quando vejo professores trabalhando com as minhas obras, porque eu já estive no lugar das crianças e nunca vi artistas como eu. Eu gosto de ver como vi um professor, o Winy, que levou minhas obras para a sala. Ele contou de mim e das obras e as crianças tiveram liberdade de desenhar a partir delas. Eu tenho produzido muito sobre crianças, crianças soltando pipas, meninos com coroas que são imagens que tenho tentado trazer mais para a rua também.


RNC: Atualmente sua obra está sendo exibida na exposição coletiva “Diário-Tempo” no Centro Cultural da Justiça Eleitoral do Pará (CCJE), como foi o processo para essa exposição?


IR: Veio de contatos criados a partir da WOW, lá eu pude escolher uma curadora para me dar uma monitoria. Escolhi a Glauce Patrícia e a gente se encontrou na Trovoa que é um movimento organizado para mulheres artistas racializadas. A gente conversou e recentemente ela me chamou para a SP-Arte e depois me convidou para a exposição coletiva “Diário-Tempo”, no Centro Cultural da Justiça Eleitoral do Pará (CCJE), onde estou participando com com dois trabalhos de vídeo intitulados: Olhares opositores e Pra quem escrevo?. A ideia era mandar pintura também, mas não tinha como fazer o transporte. O vídeo traz essa facilidade também. Essa é uma exposição que celebra a exposição de mulheres negras e foi uma honra para mim participar.


RNC: A cor amarela está sempre muito presente no seu trabalho. Existe algum motivo específico para essa escolha?


IR: Quando eu comecei a produzir, comecei a criar uma identidade de alguma forma, buscando um elemento para que as pessoas olhassem e lembrassem de mim. Eu estava pesquisando sobre questões afro-indígenas e a cor amarela diz muito sobre essa ancestralidade, então comecei a trazê-la na paleta, pensando uma paleta mais quente, com contraste. Junto do amarelo utilizo outras cores que simbolizam essa questão da ancestralidade, como vermelho e cores terrosas, que simbolizam muito esse chão, essa terra afro-indígena. É algo muito subjetivo para mim a escolha dessas cores, é difícil explicar.

RNC: Você é capoeirista e percebe-se na leitura dos seus trabalhos que a vivência da capoeira acaba reverberando em algumas de suas obras. Poderia falar mais sobre essa relação e como ela reverbera na sua poética?


IR: Eu tenho muitas ideias anotadas relacionas a obras que falem da capoeira. Tenho muita sede de trabalhar com essa minha relação, pois está muito ligado a quem eu sou. A capoeira me traz muito da ancestralidade preta e da resistência e da luta. Eu vejo a capoeira totalmente como uma forma artística; para mim a arte e a capoeira estão em pé de igualdade, as duas tem uma importância muito forte na minha vida. A capoeira, se pensar, está ligada as minhas obras e essas questões da luta, resistência, marcação de identidade e de criação única da população negra. Percebo que as pessoas conhecem a capoeira num sentido muito folclórico, então tenho vontade de falar mais dela nas minhas obras para falar das nuances da capoeira, da música, da roda, de elementos que são únicos. Acho que vai chegar o momento.


RNC: Recentemente você se graduou em Artes Plásticas pela UFES, como tem sido esse último ano? Quais os impactos da pandemia na sua produção e quais os planos pro futuro?


IR: Sim, apesar de todas questões da pandemia que foram muito fortes e ainda reverberam, acho que nesse momento eu entendi mais o que eu queria fazer, porque me virei mais para a minha produção. Eu já vivia isso, mas fazia muita coisa ao mesmo tempo e estar na Universidade às vezes me fazia produzir outras coisas. Mas foi o momento em que eu escrevi meu Trabalho de Graduação e produzi, mas também fiquei mais presente nas redes sociais. Mostrar mais meu trabalho me fez fazer muitas pontes e chegaram muitas pessoas até mim por lá. A gente sabe que é importante as pessoas verem nossa produção e nisso eu vi que tinham pessoas interessadas mesmo e me deu ânimo de produzir mais e ver que o mundo é para além do que a gente vê e às vezes nem estamos sabendo. Meu plano para o futuro é produzir muito e colocar mais em prática o que eu acredito, que é essa arte mais ligada à capoeira e ao movimento do corpo, além de produzir mais em vídeo.

1 comentário

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danieladuarte.pn
Feb 19, 2022

Que artista incrível! Uma potência intelectual e de sensibilidade... Voa, mulher!

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