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negritude e performance na construção de si

Meu corpo sempre me pareceu estranho: era como se ele não comportasse todas as possibilidades que se desenhavam em seu interior e se projetavam para fora. A partir desse estado de consciência, desenvolvi diversas ações performáticas que acreditava terem sido executadas involuntariamente. Conjugo o verbo no passado, uma vez que, desde meu contato com pesquisadores do campo dos Estudos da Performance, percebi que essas ações eram, na verdade, a reiteração de comportamentos¹, experiências, lembranças que compuseram e ainda compõem minha identidade como sujeito.


Por muito tempo, fui praticante do catolicismo, especificamente da vertente apostólica romana, ao ponto de minhas convicções me levarem a assumir o papel de coroinha² na congregação do bairro. Recordo-me de que a visualidade da indumentária sacerdotal foi o fator decisivo para que eu aceitasse desempenhar essa função no culto. A peça era composta por duas vestes: uma longa, que cobria meus pés, com mangas que iam até os pulsos, feita sob medida em cetim acetinado em tom magenta; e outra disposta por cima, mais curta, em branco, confeccionada de um tipo nobre de algodão, com mangas três-quartos.


O efeito daquelas roupas sobre mim era poderoso: quando as vestia para a celebração, em alguma medida, performava o papel de Jesus Cristo. Suas diversas imagens – esculturas e pinturas – dispostas pela congregação serviam de inspiração para a composição de meus gestos na atuação durante o culto. Eu olhava atento para as sandálias de cordas, as mãos sobrepostas e o rosto, que ora parecia blasé diante de anjos, ora atento, ensinando a multidão nas montanhas, ora ainda tenso enquanto guerreava com figuras demoníacas.


Aquelas vestes me eram tão atrativas porque “santificavam” o corpo “estranho” que eu possuía. Em outras palavras: o menino preto-gordo-gay, que na maioria das vezes era zombado pelos amigos, a partir do momento em que vestia aquela roupa, tinha todas as suas características individuais sobrepostas por um estado de santidade, de respeito e valor social. Era como se aquelas vestes se constituíssem como um dispositivo que, acoplado ao meu corpo, o colocava em lugar de paridade com os demais indivíduos de meu convívio.


Após um longo período performando esse papel e diante da dicotomia que vivenciava nos tratamentos que recebia durante a realização dos cultos e no cotidiano da vida em sociedade, decidi que aquelas roupas, até então sagradas e com utilização permitida apenas nas celebrações religiosas, pelo estado social que me proporcionavam, seriam minhas roupas cotidianas. Não me recordo bem de qual foi a estratégia que executei, mas por uma semana frequentei a escola vestindo a indumentária sacerdotal de coroinha.


Tentando me aproximar da naturalidade que observara nas figuras dispostas no templo, performava uma postura ereta, com as mãos sobrepostas e a expressão mais angelical que conseguia fazer. Nos primeiros dias, todas as pessoas que cruzavam comigo, inclusive na minha família e na escola, me tratavam como se estivéssemos em uma experiência teatral, performática. O tempo foi passando e, à medida que eles me viam vestindo a mesma roupa, dia após dia, instaurou-se um estado de calamidade. Minha família e a igreja foram chamadas para que explicassem a situação para a escola, e a justificativa que construí para não receber uma punição pela utilização da veste era a de que tinha ouvido o direcionamento de Jesus para me vestir daquela forma, com a missão de anunciá-lo. Em resumo, ao fim do ocorrido, fui suspenso por alguns dias da escola, perdi o posto de coroinha na congregação por ter violado uma indumentária consagrada e ainda fui corrigido fisicamente por minha mãe.


Assim, antes mesmo da aproximação com o campo da arte, as práticas de ações/comportamentos corporais – leia-se, performances – já se apresentavam como o método pelo qual eu produzia condições para a elaboração da vida. Se partirmos, por exemplo, dos motivos que me levaram a me submeter à prática religiosa católica e assumir a posição de coroinha em uma comunidade, bem como a utilizar as vestes sacerdotais fora do ambiente religioso, é possível apontar aspectos que já se relacionavam diretamente com as questões que atravessam minha poética artística, como, por exemplo, a inquirição sobre os processos de instituição/manutenção da animalização atribuída a corpos pretos e a confissão pública da fé católica apostólica romana, em uma tentativa de aproximação do padrão social cis-branco-heteronormativo.


Pensando na confissão de fé, ela denota a tentativa de produção ou o desejo de um local seguro para existir. Eu, um adolescente preto, gordo, afeminado, receptáculo de toda sorte de xingamentos, existindo dentro de uma lógica estruturalmente racista, enxergava naquela atitude uma ferramenta possível para a produção de condições para a minha existência. Decidir atuar como coroinha, um cargo relativamente importante para a execução do rito litúrgico, era uma tentativa de humanização de um corpo que para a maioria parecia estranho ou não humano, um corpo bestificado socialmente, que nos diversos espaços de existência estava sujeito a práticas de violência.


E foram essas práticas que me levaram a reiterar a utilização das vestes sacerdotais em um ambiente não religioso. Comumente xingado de “preto”, “gordo”, “viado” por colegas do cotidiano escolar, vi na utilização daquele vestuário uma oportunidade para a obtenção de um tratamento menos racista, tentando alcançar o que é dado aos corpos brancos, com vistas à experimentação de um ambiente não violento.


Embora toda a construção textual aqui apresentada parta da minha condição de sujeito racializado, considerando a interseccionalidade como a “forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classes e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outros”³, compreendo que a mesma lógica se aplica a outros indivíduos dissidentes, que acumulam marcadores sociais em sua existência, assim como eu, e que às suas maneiras desenvolvem mecanismos, ações, comportamentos para lidar com o racismo e as diversas violências que nos são praticadas cotidianamente.


Um exemplo dessas violências no dia a dia são os xingamentos “preto”, “gordo”, “viado”, mencionados anteriormente, que repetidas vezes ouvi na adolescência. Tais ofensas se relacionam diretamente com o que Patricia Hill Collins⁴ chama de “imagens de controle”, que, por definição, são uma contextura ideológica do racismo e de outras violências, percebidas de maneira interseccional e simultânea. Elas são produzidas e utilizadas por grupos hegemônicos para garantir a continuidade das práticas de violência e da dominação que os mantêm no poder.


Winnie Bueno⁵ acrescenta ainda que essas imagens constroem/ratificam representações deturpadas, associando a corpos como o meu estados de subalternidade, subserviência e/ou hiper/hipossexualização. Constituem uma espécie de mecanismo utilizado para impedir que pessoas pretas vivenciem um processo positivo de subjetivação e de construção de identidades, funcionando ainda no sentido de garantir a supressão de possibilidades reais de autonomia, baseadas em estereótipos articulados a partir de questões raciais, de sexualidade, de gênero e de classe.


E esses xingamentos proferidos por pessoas de meu convívio, que talvez não tivessem consciência do que de fato aquelas palavras representavam – sobretudo se consideramos sua idade e a classe social na qual estavam inseridas –, operavam dentro da lógica das imagens de controle, sobretudo por atribuírem – e permanecerem atribuindo – a um corpo diferente do delas aspectos pejorativos, que tendiam a instaurar o distanciamento entre o estado humano que conferiam a si e o monstruoso que me imputavam.


Dessa forma, a potência abarcada no reposicionamento da prática religiosa de coroinha em um ambiente não religioso estrutura-se, sobretudo, no desejo de rompimento com as imagens de controle e estereótipos que eram atribuídos a mim, por meio da adoção de uma ação corporal como metodologia. Embora esse comportamento corporal não tenha sido executado com qualquer nível de consciência racial – ou artística –, foi pela reiteração dessa ação que organizei minha subjetividade e construí possibilidades pujantes de existência, já que essas imagens e estereótipos habitam, além do contexto social coletivo, nossos conscientes e inconscientes, o que nos incita a desenvolver estratégias para subvertê-los – como a utilização da veste sacerdotal que desempenhei.


É justamente nessa chave que se baseia o método pelo qual realizo meus trabalhos artísticos. A partir do contato com o campo da arte, entendi que os comportamentos corporais que desenvolvi em resposta a situações diversas – violentas ou não –, constituem o repertório para minha criação em arte. Se retomarmos os xingamentos expostos acima, estes subsidiaram o desenvolvimento da performance Epiderme social (2015)⁶. Para este trabalho, retomo seis xingamentos – imagens de controle e estereótipos – que foram atribuídos a mim na adolescência (adjetivos oriundos de situações diversas), alguns deles narrados acima, recebidos de pessoas próximas, como familiares e outras de convívio cotidiano.


Os xingamentos são: GORDO, PRETO, VIADO, SAPATÃO, FEMINISTA e AFEMINADO. Transformando-os em carimbos (matrizes), proponho, como em um processo de produção de gravuras, que sejam impressos sobre minha pele. Para isso, durante a execução da performance, vestindo roupas do dia a dia, me posiciono no espaço público, geralmente em uma rua ou avenida com fluxo de transeuntes relevante. Em silêncio, após me despir até que só reste uma bermuda térmica preta – que comporta junto ao meu corpo o material a ser utilizado na performance –, vendo os olhos. Em uma das mãos, posiciono uma almofada carimbeira, similar às que cotidianamente são utilizadas em escritórios ou espaços que desempenham serviços administrativos, e na outra aloco os seis carimbos contendo os xingamentos acima apontados, acrescidos de um outro contendo meu nome. Após desempenhar esse memorial, em silêncio, aguardo que o público comece a marcar meu corpo. A performance tem duração de 120 minutos.

Geovanni Lima - Epiderme social (2015)

Documento de performance | Viradão Cultural, Vitória/ES | Fotografia: Tom Fonseca | Edição de imagem: Ciborgue


Especificamente considerando a execução do trabalho durante o Viradão Cultural, em 2015, foram dispostas sobre meu corpo 717 impressões produzidas pelos participantes a partir da utilização das matrizes contendo os xingamentos e meu nome. Além das impressões, elaboradas a partir dos materiais que estavam disponíveis, foram observados três escritos manuais sobre minha pele que traziam as seguintes palavras: FELIZ, FELICIDADE e AMOR, elaboradas com grafia livre pelos participantes utilizando seus dedos molhados na tinta da carimbeira.

Considerando o número absoluto das impressões produzidas, duas formas se destacaram: PRETO, repetida 458 vezes, e meu nome, GEOVANNI, identificado 17 vezes. Esses dados são importantes, uma vez que vão ao encontro tanto dos apontamentos dos teóricos acima colocados, quanto da utilização da veste de coroinha como uma ferramenta para obtenção de um tratamento menos racista, que executei no período da adolescência (décadas de 1990 e 2000), com a intenção de “santificar” meu corpo.

Se considerarmos a manipulação que meu corpo recebeu por parte dos participantes do trabalho na ocasião que descrevi, a quantidade de impressões produzidas e quais foram as matrizes escolhidas (PRETO, 458 vezes, por exemplo), inclusive a baixa utilização do carimbo que continha meu nome (17 vezes, em um universo de 717 outras impressões), a execução da performance Epiderme social indica que ainda há em operação no contexto social capixaba – e brasileiro – a utilização de imagens estereotipadas, manipuladas socialmente, que visam à manutenção do controle social e do poder sobre corpos pretos.

Geovanni Lima - Epiderme social (2015)

Documento de performance | Viradão Cultural, Vitória/ES | Fotografia: Tom Fonseca | Edição de imagem: Ciborgue


Para meu processo de criação em arte, tal constatação é extremamente potente, uma vez que é a partir dessa tomada de consciência a respeito de minha condição de indivíduo racializado e do sistema social no qual estou inserido que venho produzindo trabalhos de arte, especificamente performances, para que meu corpo fale⁷.


Corpo PRETO, GORDO, VIADO, com 171 cm de altura, 123 kg de massa corporal, olhos pretos, 112 cm de circunferência abdominal e pés rachados tamanho 44. Hipertenso, diabético, portador de foliculite supurativa crônica de couro cabeludo, acrocórdons e acantose nigricans, chagas e marcas físicas – muitas vezes oriundas de marcas psíquicas. Esse corpo, por estar inserido em contextos diversos, tem na produção de trabalhos em performances possibilidades poéticas de existência que são politicamente potentes, que o apresentam como elemento simbólico e material dentro do processo de produção dos trabalhos, escancarando a força que um corpo dissidente abarca e possibilitando que a diferença possa ser entendida como substrato para criar.



* Este texto é um desdobramento da dissertação intitulada Exercícios para se lembrar: a performance como método para a elaboração de subjetividade, orientada pelo Prof. Dr. Gilberto Alexandre Sobrinho e defendida em julho de 2021 no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Unicamp.



notas:

¹ Neste sentido, ver: SCHECHNER, Richard. O que é performance? O Percevejo, ano 11, n. 12, p. 25-50, 2003.

² Coroinha, ou “menino do coro”, é uma criança ou adolescente que se batizou na Igreja Católica e auxilia o padre nas funções do altar. Essa função sempre foi realizada por meninos. Somente em 2004, São João Paulo II autorizou, através da encíclica Redemptionis Sacramentum, que meninas também servissem ao altar. Cf. A SANTA SÉ. Instrução Redemptionis Sacramentum sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia, 25 mar. 2004. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccdds/documents/rc_con_ccdds_doc_20040423_redemptionis-sacramentum_po.html Acesso em: 4 abr. 2021.

³ CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 1, 2002, p.177.

⁴ COLLINS, Patricia Hill. Black feminist thought: knowledge, consciousness, and the politics of empowerment. London: Routledge, 2000.

⁵ BUENO, Winnie. Imagens de controle: um conceito do pensamento de Patricia Hill Collins. Porto Alegre: Zouk, 2020.

⁶ O trabalho foi executado durante o Viradão Cultural de Vitória, realizado pela Prefeitura Municipal de Vitória; na exposição coletiva Quanto mais arte melhor, organizada pelo Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal do Espírito Santo (DAV/Ufes) em correalização com a Emparede Galeria de Arte; e no I Performe-se Festival de Performances, todos em 2015; e ainda na Semana da Juventude Negra de Vitória, com realização da Secretaria Municipal de Cidadania, Direitos Humanos e Trabalho, em 2019. Os documentos gerados pelo artista visual e fotógrafo Tom Fonseca durante o Viradão Cultura de Vitória 2015 compuseram a exposição coletiva CORPOFORMER, com curadoria de Carla Borba, realizada no Centro Cultural Casa da Stael, em 2016, em Vitória/ES. Disponível em: https://www.geovannilima.com/epiderme-social

⁷ Neste sentido, ver: TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performances e memória cultural nas Américas. Tradução: Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte: UFMG, 2013.



sobre o autor:

Artista e performer; doutorando e mestre em Artes Visuais (Unicamp); especialista em Artes na Educação (Faculdade de Vitória) e licenciado em Artes Visuais (Ufes); membro dos grupos de pesquisa CNPq/Ufes: Diálogos entre Sociologia e Arte (DISSOA) e Educação e Arte Contemporânea (Entre). É um dos proponentes do projeto Performe-se – Festival de Performance, além de coordenar o Festival Lacração – Arte e Cultura LGBTQIA+. Portfólio: www.geovannilima.com


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