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descronológico retratos

Uma das perspectivas contemporâneas do ensino da arte se propõe a partir do questionamento da linearidade enganosamente evolutiva da cronologia das produções artísticas. No lugar de um trabalho que proponha um caminho linear, que percorre a produção artística narrada pelos livros de história da arte, propõe-se que o planejamento dos professores: transpasse variados contextos, relacionando-os e confrontando-os entre si; atravesse diferentes tempos, evidenciando os encontros e fricções entre produções de outros períodos e investigue múltiplos autores, demarcando como as respostas para perguntas semelhantes podem ser complexas e variadas.


A recriação de uma linha do tempo que não seja unidirecional e evolutiva possibilita um olhar ampliado para a produção de outros tempos, além de evidenciar que as produções artísticas e imagéticas se reconfiguram a partir das leituras produzidas de maneira contextual. Assim, no lugar de uma aprendizagem voltada para a compreensão de datas e de períodos, identificam-se questões pertinentes ao momento e aos sujeitos que o compuseram, possibilitando perceber conexões com o tempo presente e desenvolver analogias anacrônicas que ressignifiquem as imagens. Ao mudar esse ponto de vista de uma aprendizagem voltada para os dados e assumir a leitura das imagens como foco central, entende-se que o ensino da arte é menos um conjunto de dados históricos, publicado nos livros e apresentado em múltiplas fontes digitais, e mais uma leitura individualizada e investigativa dos aspectos que compõem o meio artístico.


Por isso propomos o descronológico, um exercício onde sugerimos a relação entre dois tempos, a partir de conexões e desconexões entre uma obra contemporânea e uma obra de algum outro período da história da arte. Na edição de hoje conectamos Retrato de D. João VI, 1817, de Charles Simon Pradier, com Lula, 1994, de Bob Wolfenson.


Antes do advento da fotografia, os retratos eram produzidos por artistas como forma de registro de figuras emblemáticas, líderes políticos e aristocratas. Charles Simon Pradier foi um dos muitos artistas a representar D. João VI, registrado com diversos elementos que remetam à importância de poder que tinha no período. Na contemporaneidade a fotografia dá novos sentidos para os retratos, aqui marcado por Bob Wolfenson, que no lugar de monarcas, registra figuras icônicas da política, da arte e da sociedade brasileira como um todo


Para além das linguagens, que se diferenciam entre calcogravura e fotografia, a composição das imagens também marca uma desconexão entre elas. A imagem de D. João VI é acompanhada de muitos elementos que reforçam seu papel como monarca, como cedros, tecidos, trono e coroa, enquanto o registro de Lula é realizado em fundo neutro, recorrente na produção de Bob Wolfenson. Essa limpeza estética é uma assinatura do fotógrafo, que dava ênfase para a figura do retratado, mas também demarca uma outra perspectiva que temos em relação às figuras políticas.


Partimos desse ponto, mas e você: que outras conexões e desconexões identifica entre as duas obras?




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