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descronológico cadeiras

Uma das perspectivas contemporâneas do ensino da arte se propõe a partir do questionamento da linearidade enganosamente evolutiva da cronologia das produções artísticas. No lugar de um trabalho que proponha um caminho linear, que percorre a produção artística narrada pelos livros de história da arte, propõe-se que o planejamento dos professores: transpasse variados contextos, relacionando-os e confrontando-os entre si; atravesse diferentes tempos, evidenciando os encontros e fricções entre produções de outros períodos e investigue múltiplos autores, demarcando como as respostas para perguntas semelhantes podem ser complexas e variadas.


A recriação de uma linha do tempo que não seja unidirecional e evolutiva possibilita um olhar ampliado para a produção de outros tempos, além de evidenciar que as produções artísticas e imagéticas se reconfiguram a partir das leituras produzidas de maneira contextual. Assim, no lugar de uma aprendizagem voltada para a compreensão de datas e de períodos, identificam-se questões pertinentes ao momento e aos sujeitos que o compuseram, possibilitando perceber conexões com o tempo presente e desenvolver analogias anacrônicas que ressignifiquem as imagens. Ao mudar esse ponto de vista de uma aprendizagem voltada para os dados e assumir a leitura das imagens como foco central, entende-se que o ensino da arte é menos um conjunto de dados históricos, publicado nos livros e apresentado em múltiplas fontes digitais, e mais uma leitura individualizada e investigativa dos aspectos que compõem o meio artístico.


Por isso propomos o descronológico, um exercício onde sugerimos a relação entre dois tempos, a partir de conexões e desconexões entre uma obra contemporânea e uma obra de algum outro período da história da arte. Na edição de hoje conectamos Poltronas do dormitório de Maria Antonieta, produzidas entre 1785-1790 por Jean-Baptiste-Claude Sené, com Uma e três cadeiras, 1965, de Joseph Kosuth.


Como conexões consideramos que a representação de cadeiras sempre esteve presente na produção artística, ao ponto de que uma pesquisa nos livros de história da arte mais utilizados nos cursos de formação na área comprova que em torno de 10% das suas imagens são de cadeiras (fonte da pesquisa). Nesse caso escolhemos múltiplos de cadeiras, um par de poltronas do dormitório da Rainha Maria Antonieta e um trípticoconceitual de Joseph Kosuth.


As duas obras se aproximam pela representação múltipla de cadeiras, mas também pela fragmentação das coleções. Enquanto as poltronas de Jean-Baptiste-Claude Sené foram separadas dos demais móveis que compunham o conjunto e hoje estão no Louvre (Paris) ou no MET (NY), estas peças hoje são da coleção do Victoria and Albert Museum (Londres). Já no caso da obra de Kosuth a história é mais peculiar. Acontece que Uma e três cadeiras, obra emblemática da arte conceitual, gerou enganos no processo de catalogação do MoMA (NY), uma vez que a fotografia, o cartaz com a definição do verbete cadeira e o objeto foram separados em diferentes seções quando guardados na reserva técnica. assim, vemos identificações visuais da cadeira provocando discussão sobre o próprio sistema da arte.


Em contrapartida, a primeira questão que distancia essas duas produções é da funcionalidade em si. Enquanto nas poltronas do quarto de Maria Antonieta a utilização das cadeiras como mobiliário era uma premissa, na obra de Kosuth a funcionalidade se perde nas três leituras da cadeira. Outra questão que as difere são os materiais, a primeira ostenta um trabalho em madeira, ouro e tecido e a segunda independe do material para constituir a narrativa que propõe.


Partimos desse ponto, mas e você: que outras conexões e desconexões identifica entre as duas obras?




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